Gongocompostagem

Gongocompostagem: Guia Completo para Produzir Adubo com Piolho-de-Cobra

O piolho-de-cobra — também chamado de gongolo, embuá, maria-café ou grangugi — costuma ser visto como um bicho incômodo que aparece no quintal depois da chuva. Mas pesquisadores da Embrapa Agrobiologia, em Seropédica (RJ), descobriram que ele é um dos melhores trituradores de resíduo vegetal que existem, e criaram a partir disso uma técnica de adubação chamada gongocompostagem.

Neste guia você vai entender o que é a gongocompostagem, por que ela funciona, como montar um gongolário, quais resíduos usar, quanto tempo leva e como aproveitar o gongocomposto na produção de mudas.

O que é a gongocompostagem

Gongocompostagem é a compostagem feita com a ajuda dos gongolos (diplópodes). Eles comem folhas secas, aparas de grama, restos de poda e até papelão, e devolvem esse material em forma de pequenos grãos de fezes. Esses grãos, depois de algumas semanas, formam um composto escuro, leve e granulado: o gongocomposto, também chamado de “húmus de gongolo”.

A grande diferença em relação à minhocultura está no tipo de resíduo. O gongolo tem um aparelho bucal mastigador e consegue triturar materiais fibrosos, com relação carbono/nitrogênio (C:N) acima de 50 — o papelão, por exemplo, tem C:N em torno de 300. As minhocas, ao contrário, trabalham melhor com materiais mais “frescos”, como esterco e restos de cozinha. Por isso as duas técnicas se complementam.

Qual espécie de gongolo usar

A espécie mais estudada é a Trigoniulus corallinus, o gongolo vermelho-intenso muito comum em hortas, pilhas de composto e canteiros de minhoca. Ela é originária do sudeste asiático, mas hoje está espalhada por todo o Brasil em locais com resíduo vegetal e umidade.

A própria Embrapa recomenda usar a espécie que aparece em maior quantidade na sua propriedade. Espécies nativas, como a Rhinocricus padbergi (da Mata Atlântica), também funcionam e já são usadas por produtores. Usar o gongolo local evita levar uma espécie de fora para o seu ambiente e facilita a adaptação aos seus resíduos e ao seu clima.

Para começar, basta 1 litro de gongolos — cerca de 1.800 indivíduos de T. corallinus. Eles são fáceis de achar em canteiros de minhoca, pilhas de compostagem e áreas úmidas com folhas acumuladas, principalmente no começo da manhã ou à noite. Use luvas na coleta: a secreção de defesa do gongolo não é perigosa, mas pode irritar e manchar a pele.

Como montar o gongolário

O gongolário é o espaço onde os gongolos vivem e processam o resíduo. Na Fazendinha Agroecológica Km 47, da Embrapa, ele é um pequeno galpão de madeira coberto com lona, com manilhas de concreto de 1 m de diâmetro e 0,50 m de altura servindo de recipiente. Em casa ou em pequenas propriedades, funciona bem com:

Alguns cuidados valem para qualquer modelo:

Quantos recipientes e quantos gongolos você precisa? Informe quanto resíduo você junta por mês e o tipo de recipiente, e veja o volume ocupado, quantos litros de gongolos colocar e a mistura de resíduos.

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Quais resíduos usar

Toda matéria orgânica vegetal seca ou já senescente serve: folhas secas, aparas de grama, folhas de bananeira, restos de poda (galhos finos e folhas), palha, bagaço de cana, sabugo de milho e papelão picado.

Duas regras são importantes:

A mistura testada pela Embrapa, em volume, foi: 40% folhas de pata-de-vaca, 30% aparas de grama, 20% folhas de bananeira e 10% papelão picado. Antes de colocar os gongolos, molhe e misture bem os resíduos — a umidade deve ficar entre 50 e 65% (o material úmido ao toque, sem escorrer água quando apertado).

Quanto tempo leva

A partir de 3 meses já existe uma boa quantidade de composto no fundo do recipiente. Para produzir mudas mais vigorosas, a Embrapa recomenda esperar 4 meses (120 dias).

O processo pode ser contínuo: sempre que o volume da pilha baixar, você adiciona resíduo novo por cima e retira o composto pronto do fundo. Os gongolos reduzem o volume do resíduo em até 70%, então o recipiente “esvazia” bem rápido.

Para colher, peneire o material em malha de 2 mm. Os gongolos e os pedaços maiores ficam na peneira e voltam para o gongolário. O composto peneirado pode ser guardado em sacos de ráfia ou plástico fechados, em local seco e arejado, com umidade em torno de 30 a 45%.

Quanto se produz

Um casal de permacultores de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, adaptou a técnica com resíduos de poda urbana (folhas de bananeira, helicônias, hibiscos e outras plantas de paisagismo) e caixas de 60 L. Eles produzem de 30 a 40 kg de gongocomposto por mês e vendem o excedente na região, segundo relato publicado nos Cadernos de Agroecologia em parceria com a Embrapa.

Como o gongocomposto é muito leve (cerca de 300 kg por metro cúbico), 30 kg correspondem a aproximadamente 100 litros de composto — o que exige algo em torno de 330 litros de resíduo seco por mês.

Quanto o seu gongolário vai produzir? Veja a produção mensal e anual de gongocomposto a partir do resíduo disponível, com a receita estimada se você for vender.

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Como usar o gongocomposto

O principal uso é como substrato para mudas de hortaliças em bandeja. A Embrapa recomenda usar o gongocomposto peneirado puro, sem misturar outro material: “basta peneirar e usar”. Em testes, mudas de alface, rúcula, brócolis e maracujá produzidas em gongocomposto tiveram desenvolvimento superior ao de mudas em substratos orgânicos comerciais, com mais massa de folhas e raízes, mais altura e um torrão mais firme na hora do transplante.

Na análise da Embrapa, o gongocomposto produzido em 120 dias apresentou densidade de 320 kg/m³, porosidade total de 80%, pH 7,7 e condutividade elétrica de 1,39 dS/m (abaixo do limite de 2 dS/m, a partir do qual o excesso de sais prejudica as mudas). Também tinha 22,6 g/kg de nitrogênio, 2,0 g/kg de fósforo, 7,5 g/kg de potássio e 34,3 g/kg de cálcio.

Os resultados variam conforme os resíduos usados. Um estudo do IFS em Aracaju, com folhas e galhos do próprio campus, encontrou um composto bem mais salino e recomendou misturá-lo a outros substratos. Por isso, se for produzir em escala, vale testar uma bandeja antes ou mandar uma amostra para análise.

Quanto gongocomposto enche as suas bandejas? Calcule os litros necessários para bandejas de 72, 128 ou 200 células, quanto resíduo você precisa processar e quanto economiza em substrato comercial.

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Erros mais comuns

Gongocompostagem ou minhocultura?

As duas técnicas não competem: o gongolo cuida do resíduo seco e fibroso, e a minhoca, do resíduo úmido e mais rico em nitrogênio. Veja a comparação completa em Gongocomposto ou húmus de minhoca: diferenças e quando usar cada um.

Fontes: Embrapa Agrobiologia — Comunicado Técnico 149 “Gongocomposto: uma alternativa de substrato orgânico na produção de mudas de hortaliças” (2021) e Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento 115; Cadernos de Agroecologia v.15 (2020), “Gongocompostagem a partir de resíduos de poda no município de São Sebastião”; revista Fronteiras v.13 (2024), estudo do IFS Aracaju.