Gongocompostagem

Gongocomposto ou Húmus de Minhoca: Diferenças e Quando Usar Cada Um

Quem já cria minhocas costuma encontrar piolhos-de-cobra (gongolos) misturados no minhocário — e muita gente tira os gongolos achando que são uma praga. Mas os dois animais produzem adubo de qualidade, cada um a partir de um tipo diferente de resíduo. Entender essa diferença ajuda a aproveitar todo o resíduo orgânico da propriedade, e não só uma parte dele.

A diferença começa no que eles comem

A minhoca (como a Vermelha da Califórnia) trabalha melhor com material úmido e rico em nitrogênio: esterco curtido, restos de frutas e verduras, borra de café. Palha e folhas secas entram só em pequena quantidade, para dar estrutura ao canteiro.

O gongolo é o contrário. Ele tem um aparelho bucal mastigador e tritura materiais secos e fibrosos, com relação carbono/nitrogênio (C:N) acima de 50: folhas secas, aparas de grama, restos de poda, palha e até papelão (C:N perto de 300). Resíduo verde demais, para ele, é um problema — fermenta, esquenta e pode matar a criação.

Na prática: a minhoca dá destino ao resíduo da cozinha e ao esterco; o gongolo, à varrição do quintal, à poda e à grama cortada.

Comparação lado a lado

Densidade: por que o gongocomposto é tão bom para mudas

Bandejas de mudas pedem um substrato leve, que segure água e ao mesmo tempo deixe a raiz respirar. Segundo a literatura técnica, o ideal para bandejas fica entre 100 e 300 kg/m³.

O gongocomposto da Embrapa mediu 320 kg/m³, com 80% de porosidade total — praticamente na faixa ideal. Num estudo do IFS em Aracaju que produziu os dois compostos lado a lado, o húmus de minhoca saiu cerca de 1,9 vez mais denso que o gongocomposto (710 contra 380 kg/m³). Mais denso não é pior: só indica usos diferentes. O húmus de minhoca rende mais em vasos grandes, canteiros e covas; o gongocomposto brilha nas bandejas.

Em testes da Embrapa, mudas de alface, rúcula, brócolis, berinjela e maracujá produzidas em gongocomposto puro tiveram desenvolvimento superior ao de mudas em substratos orgânicos comerciais, com torrão mais firme no transplante.

E os nutrientes?

Os dois são adubos completos, e a composição depende muito do resíduo que entrou. O gongocomposto da Embrapa, feito com pata-de-vaca, grama, folha de bananeira e papelão, teve pH 7,7, 22,6 g/kg de nitrogênio e 34,3 g/kg de cálcio, com salinidade baixa (1,39 dS/m).

No estudo de Aracaju, o gongocomposto teve mais nitrogênio, carbono, cálcio e magnésio que o húmus de minhoca produzido no mesmo local, e as sementes de alface e rúcula germinaram mais e morreram menos nele. Por outro lado, os dois compostos daquele estudo saíram salinos demais para uso puro, e os autores recomendaram misturá-los a outros substratos. A lição é a mesma para os dois: o adubo é tão bom quanto o resíduo que o originou.

Quando escolher cada um

Prefira a minhocultura se:

Prefira a gongocompostagem se:

Ou faça as duas. Em muitas propriedades, o melhor arranjo é ter um minhocário para o resíduo úmido e um gongolário para o resíduo seco. O casal de São Sebastião (SP) citado pela Embrapa começou com minhocas, descobriu os gongolos no próprio minhocário e hoje produz de 30 a 40 kg de gongocomposto por mês, além do húmus.

Faça as contas para os dois sistemas. Veja quanto húmus o seu plantel de minhocas produz e quanto gongocomposto sai do seu resíduo seco.

Calculadora de Húmus de Minhoca → Calculadora de Gongocomposto →

Para se aprofundar

Fontes: Embrapa Agrobiologia — Comunicado Técnico 149 (2021); Cadernos de Agroecologia v.15 (2020); Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science v.13 n.2 (2024), “Análise dos parâmetros físico-químicos do gongocomposto e vermicomposto produzidos no IFS Aracaju”.